Comida de verdade ou fórmula de laboratório? O que mudou no que a gente come
- Comunicação Favela In
- 11 de fev.
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A forma como nos alimentamos mudou drasticamente nos últimos 50 anos, impulsionada por transformações sociais, econômicas e tecnológicas que alteraram a produção, a distribuição e o consumo de alimentos em todo o mundo (Menegassi et al., 2018; Vicentini, 2015). A urbanização acelerada, a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, o ritmo mais rápido das cidades e a expansão das grandes redes de supermercados favoreceram a busca por produtos prontos, duráveis e convenientes, deslocando gradativamente o lugar das refeições caseiras e dos alimentos frescos (Vicentini, 2015).
Se antigamente a base da nossa mesa eram os alimentos in natura ou minimamente processados, como o arroz, o feijão, as frutas, os legumes e as carnes frescas, hoje fomos invadidos por uma oferta crescente de ultraprocessados (Brasil, 2014; Santos et al., 2021). Esses produtos não são alimentos de verdade no sentido tradicional, mas sim formulações industriais feitas inteira ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (como óleos, gorduras, açúcares e amidos) ou sintetizadas em laboratório a partir de carvão e petróleo para imitar cor, cheiro, textura e gosto (Brasil, 2014; Braga et al., 2021; Kraemer et al., 2022).
Essa mudança não se limita apenas ao que comemos, mas também a como comemos: Com jornadas de trabalho mais longas, estudos e deslocamentos diários, muitas pessoas passaram a priorizar a praticidade, comer mais fora de casa, de forma mais rápida e com menor atenção à origem e à qualidade dos ingredientes. Como consequência, construiu-se um padrão alimentar marcado por alta densidade calórica, baixo teor de fibras e micronutrientes e elevada presença de aditivos químicos, açúcares livres e gorduras refinadas (Brasil, 2014; Menegassi et al., 2018). O resultado desse processo é uma dieta progressivamente empobrecida do ponto de vista nutricional, que contribui diretamente para o aumento alarmante de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes e hipertensão na população brasileira (Menegassi et al., 2018; Vicentini, 2015).
Da reformulação ao rebaixamento: quando o produto muda sem você perceber
Nos últimos anos, a indústria de alimentos tem recorrido com frequência às chamadas "reformulações" de produtos. Em geral, essas mudanças são apresentadas como melhorias tecnológicas ou adaptações de mercado, mas, na prática, muitas vezes significam a substituição de ingredientes tradicionais por insumos mais baratos e ultraprocessados, como gorduras vegetais refinadas, açúcares, aditivos e aromatizantes (Oliveira, 2025; Brasil, 2014). Como resultado, diversos alimentos mantêm a mesma marca e a mesma aparência na prateleira, mas passam a ter uma composição nutricional inferior à versão anterior, com maior teor de açúcar, gordura e aditivos (Santos et al., 2021).
Um exemplo emblemático desse processo ocorre com os produtos "de chocolate": diversos biscoitos de grandes multinacionais, como Trakinas, Passatempo e KitKat, passaram por mudanças recentes em suas fórmulas. Com a alta do preço do cacau, muitos fabricantes passaram a retirar ou reduzir a massa e a manteiga de cacau e a substituí-las por gordura vegetal hidrogenada, açúcar e aromatizantes artificiais, levando à mudança de nomenclatura para "sabor chocolate" (Oliveira, 2025; Richter; Lannes, 2007). Análises recentes de rótulos mostram que, em diversos biscoitos reformulados, o açúcar passou a ocupar a primeira posição na lista de ingredientes, enquanto o cacau foi deslocado para posições inferiores, indicando maior presença de "enchimento" e menor quantidade de alimento real (Oliveira, 2025). Apesar dessas alterações substanciais, as embalagens geralmente permanecem visualmente semelhantes, o que dificulta para o consumidor perceber que está adquirindo um produto de qualidade diferente daquela que comprava anteriormente (Oliveira, 2025). Esse movimento de "rebaixamento" não se restringe ao chocolate: lógicas semelhantes têm sido observadas em produtos como o "queijo sabor mussarela", o "queijo sabor cheddar" e a "linguiça tipo calabresa", entre diversos outros alimentos em que a indústria tem explorado brechas regulatórias para reduzir custos de produção mantendo, ao mesmo tempo, a aparência familiar do produto ao consumidor.
Como ler o rótulo do alimento para não ser enganado
Para se defender dessas armadilhas, o primeiro passo é compreender que o rótulo funciona como o "RG" do alimento: é ali que está registrada sua verdadeira identidade. Por lei, os ingredientes devem ser listados em ordem decrescente, ou seja, o que aparece primeiro é o que está presente em maior quantidade dentro da embalagem (Oliveira, 2025; Santos et al., 2021; Bazana, 2024). Na prática, isso significa que, se você pega um suco, biscoito ou achocolatado e encontra açúcar ou gordura vegetal como primeiro ingrediente, esse produto é majoritariamente composto por esses itens e tende a ser uma "bomba" calórica com baixo valor nutricional (Brasil, 2014; Vicentini, 2015).
Além da ordem dos ingredientes, o tamanho e a complexidade da lista também dizem muito sobre o alimento. Quanto mais longa ela for e quanto mais nomes técnicos e pouco familiares aparecem, como emulsificantes, estabilizantes, espessantes e realçadores de sabor, maior é a probabilidade de se tratar de um ultraprocessado, cuja formulação depende fortemente de aditivos para imitar características sensoriais de alimentos naturais (Brasil, 2014; Braga et al., 2021). Por isso, uma regra simples e eficaz é: listas curtas geralmente indicam alimentos mais próximos do natural, enquanto listas extensas indicam maior grau de processamento.
Outro ponto importante é a rotulagem nutricional frontal, implementada recentemente no Brasil. Os símbolos em formato de lupa na parte da frente da embalagem alertam de maneira direta quando o produto é alto em açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio, três componentes associados ao aumento do risco de doenças crônicas (Santos et al., 2021; Bazana, 2024). Esses avisos ajudam especialmente consumidores com menos tempo ou familiaridade com termos técnicos a fazer escolhas mais conscientes no momento da compra.
Por fim, é fundamental comparar produtos semelhantes. Ao colocar lado a lado dois biscoitos ou dois achocolatados, por exemplo, o consumidor pode observar qual deles apresenta menos açúcar, menos gordura e uma lista de ingredientes mais simples, exercendo um papel ativo na seleção de alimentos mais saudáveis e menos ultraprocessados (Santos et al., 2021).


O perigo dos aditivos escondidos
Embora muitos aditivos sejam legalmente permitidos, o número de substâncias químicas autorizadas na indústria de alimentos ultrapassa 5.000 compostos, e parte deles apresenta riscos que nem sempre são visíveis ao consumidor (Brito; Andrade, 2022). Entre os mais controversos está o Corante Caramelo IV, amplamente utilizado em refrigerantes de cola e em diversos biscoitos, cuja segurança vem sendo questionada em estudos que sugerem possível relação com o desenvolvimento de câncer (Oliveira, 2025). Outro exemplo é a Tartrazina, corante presente em produtos amarelos e alaranjados, reconhecido por desencadear reações alérgicas em indivíduos sensíveis, razão pela qual a legislação exige que seu nome seja declarado por extenso no rótulo, sem o uso de códigos (Bazana, 2024).
Além dos corantes, os conservantes nitratos e nitritos, comumente empregados em salsichas, presuntos e linguiças, também merecem atenção. Ao serem metabolizados no organismo, esses compostos podem originar substâncias potencialmente cancerígenas no ambiente ácido do estômago (Kraemer et al., 2022; Bazana, 2024). Embora a indústria sustente que esses aditivos são seguros quando consumidos dentro dos limites estabelecidos, permanece a incerteza científica sobre os efeitos acumulativos da exposição diária e prolongada a múltiplos aditivos ao longo dos anos (Kraemer et al., 2022; Braga et al., 2021).
Por que as crianças são as que mais sofrem?
O público infantil tem se tornado um dos principais alvos da indústria de alimentos ultraprocessados, que utiliza personagens, cores vibrantes e estratégias de marketing para criar vínculos emocionais com as crianças e influenciar suas preferências alimentares desde cedo (Vicentini, 2015; Braga et al., 2021). Além disso, o organismo infantil é biologicamente mais vulnerável aos aditivos químicos: as crianças possuem menor peso corporal, metabolismo ainda em desenvolvimento e sistemas de desintoxicação imaturos, o que dificulta a eliminação dessas substâncias do corpo (Kraemer et al., 2022; Polônio; Peres, 2009).
Nesse contexto, a chamada Ingestão Diária Aceitável (IDA), quantidade máxima considerada segura para consumo, tende a ser ultrapassada com facilidade quando há consumo frequente de produtos como gelatinas, salgadinhos, biscoitos recheados e refrescos em pó (Kraemer et al., 2022; Braga et al., 2021). A exposição constante a esses aditivos tem sido associado ao aumento de reações alérgicas, como asma e urticária, além de possíveis impactos no comportamento, incluindo maior incidência de hiperatividade e sintomas relacionados ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) (Kraemer et al., 2022; Polônio; Peres, 2009; Brito; Andrade, 2022).
Informação é o caminho para a saúde
Diante de uma indústria que prioriza o lucro e a durabilidade dos produtos na prateleira, cabe a nós, consumidores, resgatarmos o hábito de descascar mais e desembalar menos (Brasil, 2014). Contudo, essa orientação levanta uma questão central para grande parte da população: será que comer bem virou luxo? Estudos mostram que alimentos ultraprocessados tendem a ser mais baratos, mais acessíveis e mais amplamente distribuídos do que alimentos frescos, o que dificulta escolhas saudáveis, especialmente em contextos de baixa renda (Vicentini, 2015).
Apesar desses desafios, é possível comer melhor mesmo com recursos limitados. Priorizar alimentos básicos e culturalmente presentes na mesa brasileira, como arroz, feijão, legumes da estação, frutas locais e preparações caseiras, costuma ser mais econômico e nutricionalmente vantajoso do que depender de produtos prontos e ultraprocessados (Brasil, 2014). Planejar compras, aproveitar feiras e mercados locais, evitar desperdícios e preparar refeições em casa são estratégias que aumentam o valor nutricional das refeições sem necessariamente aumentar os gastos. Além disso, combinar diferentes alimentos vegetais (grãos, leguminosas e hortaliças) contribui para uma alimentação mais equilibrada em fibras, vitaminas e minerais (Santos et al., 2021).
Para que essas mudanças sejam viáveis em larga escala, a informação e a educação alimentar são fundamentais. Oficinas de leitura de rótulos e atividades de educação alimentar e nutricional podem empoderar a população a fazer escolhas mais conscientes, compreendendo o que está comprando e consumindo. Esse tipo de iniciativa é especialmente importante nas escolas, onde crianças e adolescentes podem desenvolver desde cedo uma relação mais crítica e saudável com a alimentação (Vicentini, 2015).
Nesse sentido, cursos simples e gratuitos disponíveis nacionalmente também podem ser ferramentas valiosas de formação. Um exemplo é o curso da ENAP (Escola Nacional de Administração Pública) "Noções Básicas de Alimentação Saudável e Consumo de Hortaliças", acessível a qualquer pessoa no Brasil. O curso aborda critérios para escolhas alimentares mais saudáveis e seguras, enfatiza o consumo adequado de hortaliças, incentiva a leitura e a valorização de informações confiáveis sobre alimentos e discute o papel dos nutrientes e das fibras na promoção da saúde e do bem-estar.
Quando consumidores passam a compreender melhor os rótulos, ingredientes e qualidade dos alimentos, seja por meio de oficinas, da escola ou de cursos como os da ENAP, eles também passam a demandar produtos mais transparentes e menos dependentes de aditivos. É nesse contexto que o movimento "Clean Label" (rótulo limpo) ganha força: não apenas como tendência de mercado, mas como resposta à maior consciência do público, pressionando empresas a reduzir listas de ingredientes, substituir aditivos controversos e valorizar matérias-primas mais próximas do alimento de verdade (Bazana, 2024).
Ainda assim, a mudança estrutural não depende apenas da indústria. Ela se consolida quando nossas escolhas no mercado acompanham essa consciência. Ao preferir alimentos simples, valorizar preparações caseiras e ficar de olho nas letras miúdas das embalagens, fortalecemos nossa autonomia alimentar e protegemos a nossa saúde e das próximas gerações contra a invasão da comida de laboratório (Santos et al., 2021; Brito; Andrade, 2022).
Referências:
BAZANA, Natália Diniz. Aditivos alimentares: impactos na saúde humana e o desafio da indústria alimentícia frente ao movimento clean label. 2024. 34 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Engenharia de Alimentos) – Universidade Federal de São Carlos, campus Lagoa do Sino, Buri, 2024.
BRAGA, Luiza Vargas Mascarenhas; SILVA, Alessandro Rangel Carolino Sales; ANASTÁCIO, Lucilene Rezende. Levantamento de aditivos alimentares em produtos alimentícios voltados para o público infantil. Segurança Alimentar e Nutricional, Campinas, v. 28, p. 1-8, 2021.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
BRITO, Ana Claudia Tavares De; ANDRADE, Jerusa Souza. Aditivos alimentares: impacto que pode causar na saúde humana. Research, Society and Development, v. 11, n. 11, p. 1-11, 2022.
FURTADO, Alice N. et al. Substituição do açúcar na indústria de alimentos: frequência de sucralose e estévia em produtos comercializados localmente. In: JORNADA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA DO IFSULDEMINAS, 17., 2025. Carmo de Minas: IFSULDEMINAS, 2025.
KRAEMER, Mariana Vieira dos Santos et al. Aditivos alimentares na infância: uma revisão sobre consumo e consequências à saúde. Revista de Saúde Pública, v. 56, n. 32, p. 1-17, 2022.
MENEGASSI, Bruna et al. A nova classificação de alimentos: teoria, prática e dificuldades. Ciência & Saúde Coletiva, v. 23, n. 12, p. 4165-4176, 2018.
OLIVEIRA, Karla Ferraz Emereciano de. Análise de Rotulagem Nutricional de Biscoitos Ultraprocessados Sabor Chocolate Reformulados. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Nutrição) – Faculdade Pernambucana de Saúde, Recife, 2025.
POLÔNIO, Maria Lúcia Teixeira; PERES, Frederico. Consumo de aditivos alimentares e efeitos à saúde: desafios para a saúde pública brasileira. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 25, n. 8, p. 1653-1666, ago. 2009.
RICHTER, Marissol; LANNES, Suzana Caetano da Silva. Ingredientes usados na indústria de chocolates. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas, v. 43, n. 3, p. 357-370, jul./set. 2007.
SANTOS, Larissa Lira dos et al. Leitura dos rótulos nutricionais e o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados: relato de experiência de oficina prática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v. 4, n. 4, p. 18400-18419, jul./ago. 2021.
VICENTINI, Mariana Scudeller. Alimentos industrializados: abordagem da indústria, consumidores e governo. Segurança Alimentar e Nutricional, Campinas, v. 22, n. 1, p. 257-316, 2015.






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