Da luta contra a fome ao combate ao excesso: a nova batalha da nutrição infantil
- Comunicação Favela In
- 16 de dez. de 2025
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Da ausência ao excesso
Estamos diante de um marco histórico global: em pesquisa realizada pela UNICEF (2025), pela primeira vez, a obesidade infantil supera a desnutrição entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos. Em 2025, 391 milhões de crianças estavam com sobrepeso ou obesidade, contra 390 milhões em situação de baixo peso ou desnutrição (UNICEF, 2025). Esse ponto de virada global evidencia a dimensão de uma epidemia silenciosa que se alastra em diferentes contextos, afetando tanto países ricos quanto em desenvolvimento.
O Brasil reflete essa tendência mundial e atravessa, nas últimas décadas, uma profunda transformação no campo da alimentação e da saúde infantil. Se em grande parte do século XX a desnutrição era o principal problema de saúde pública ligado à infância, hoje o cenário se inverteu: a obesidade infantil já é mais prevalente do que a desnutrição (UNICEF, 2025). Essa mudança representa um paradoxo: ao mesmo tempo em que milhões de famílias ainda enfrentam insegurança alimentar e dificuldades de acesso a uma alimentação adequada, cresce também a prevalência do excesso de peso entre crianças e adolescentes.
Esse fenômeno é descrito pela literatura científica como transição nutricional: um processo caracterizado pela queda da desnutrição acompanhada do aumento progressivo de sobrepeso e obesidade (BATISTA FILHO; RISSIN, 2018; MONTEIRO et al., 2019). Longe de significar o fim da fome, ele evidencia como os ambientes alimentares estão cada vez mais dominados por produtos ultraprocessados, baratos e amplamente disponíveis, especialmente nas periferias urbanas e favelas (UNICEF, 2025).
Diante dessa realidade, torna-se urgente refletir sobre as consequências sociais e de saúde desse novo quadro, principalmente nas favelas, onde diferentes formas de insegurança alimentar se combinam: de um lado, a persistência da fome; de outro, a crescente exposição a alimentos de baixo custo e baixa qualidade nutricional. Este artigo reúne evidências científicas e análises de relatórios internacionais para compreender as raízes dessa transição e apontar caminhos possíveis para enfrentá-la.
A queda da desnutrição: uma conquista parcial
A trajetória recente do Brasil revela avanços importantes na luta contra a fome. Desde os anos 1990, políticas públicas voltadas para a segurança alimentar, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, contribuíram para a queda expressiva da desnutrição infantil (BATISTA FILHO; RISSIN, 2018; MONTEIRO et al., 2019). Essa conquista representou uma vitória histórica contra um problema que, durante décadas, comprometeu o desenvolvimento físico e cognitivo de milhões de crianças.
Outro fator decisivo foi a implementação de iniciativas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que ampliou o acesso a refeições balanceadas dentro do ambiente escolar, e a Estratégia Saúde da Família, que intensificou o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Esses esforços ajudaram a reduzir as internações hospitalares por desnutrição, evidenciando o papel das políticas integradas de saúde e assistência social (SOUZA; SILVA; GIUGLIANI, 2020).
Contudo, a superação parcial da desnutrição não significou a garantia plena de uma alimentação adequada e saudável. Ainda persistem desigualdades marcantes no acesso a alimentos de qualidade, especialmente em regiões periféricas, onde a insegurança alimentar continua presente sob diferentes formas. Como ressaltam Souza, Silva e Giugliani (2020), a fome deixou de ser apenas ausência de comida, e passou a coexistir com dietas baseadas em alimentos de baixo custo, pouco nutritivos e ultraprocessados. O desafio, portanto, deixou de ser apenas o combate à fome e passou a incluir a promoção de uma nutrição equilibrada, capaz de prevenir tanto a carência quanto o excesso.
A transição nutricional brasileira
O conceito de transição nutricional, ajuda a compreender como o Brasil passou de um quadro marcado pela fome, para outro em que o excesso de peso se tornou prevalente. Entre os anos 2000 e 2016, a redução da desnutrição foi acompanhada pelo crescimento constante do sobrepeso e da obesidade em todas as faixas etárias, inclusive na infância (SOUZA; SILVA; GIUGLIANI, 2020). Batista Filho e Rissin (2018) destacam que esse movimento não ocorreu de forma homogênea: enquanto as regiões mais pobres ainda convivem com bolsões de insegurança alimentar, observa-se também o avanço de dietas baseadas em alimentos de baixo custo e alto teor calórico.
As pesquisas de Monteiro et al. (2019) demonstram que essa mudança está diretamente associada a transformações nos padrões de consumo: a redução no consumo de alimentos frescos e minimamente processados, como arroz, feijão, frutas e hortaliças, e o aumento expressivo de ultraprocessados ricos em açúcar, gorduras e sódio. Essa substituição alimentar é resultado não apenas de escolhas individuais, mas também de fatores estruturais, como o preço mais baixo, a facilidade de acesso e a forte presença de publicidade direcionada ao público infantil.
Dessa forma, a transição nutricional brasileira não deve ser entendida apenas como um sinal de progresso econômico ou social, mas como um alerta para novos desafios de saúde pública. Ela revela a necessidade de políticas que não apenas combatam a fome, mas que também promovam ambientes alimentares saudáveis e garantam o direito a uma nutrição equilibrada.
Obesidade infantil: a nova epidemia
A obesidade infantil deixou de ser apenas uma preocupação emergente e se consolidou como uma epidemia de saúde pública. Dados do UNICEF (2025) revelam que, pela primeira vez, o excesso de peso superou a desnutrição globalmente entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos (9,4% contra 9,2%), um marco que também reflete a realidade brasileira. No país, estudos apontam que a prevalência do sobrepeso cresce de forma acelerada, atingindo tanto famílias de maior renda quanto aquelas em situação de vulnerabilidade (COUTINHO; GENTIL; TORAL, 2018; SILVA; DIAS; CAMPOS, 2020).
Esse fenômeno é preocupante porque seus efeitos vão muito além da infância. Crianças com excesso de peso têm maior probabilidade de se tornarem adultos obesos, aumentando os riscos de doenças crônicas como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e complicações cardiovasculares (NUNES; MORAES; ANDRADE, 2019). Além disso, há impactos emocionais e sociais relevantes, como estigmatização, bullying escolar e redução da autoestima, que podem comprometer o desenvolvimento integral da criança.
A literatura mostra que a obesidade infantil é fruto de múltiplos fatores: mudanças no estilo de vida, menor prática de atividade física, maior tempo de tela e, principalmente, um ambiente alimentar que facilita o consumo de ultraprocessados baratos e de fácil acesso (MONTEIRO et al., 2019; UNICEF, 2025). Trata-se, portanto, de um problema que não pode ser responsabilizado apenas às famílias ou indivíduos, mas que reflete desigualdades estruturais e escolhas políticas sobre o sistema alimentar.
Realidade alimentar nas favelas: do marketing dos ultraprocessados ao fast food do "corre"
Nas favelas, a luta contra a fome convive de forma intensa com o desafio da obesidade. Estudos mostram que crianças de áreas de maior vulnerabilidade estão mais expostas a ambientes alimentares onde predominam opções ultraprocessadas de baixo custo e alta densidade calórica (SILVA; DIAS; CAMPOS, 2020; UNICEF, 2025). Enquanto o acesso a frutas, verduras e proteínas de qualidade é limitado e caro, produtos industrializados são amplamente disponíveis e fortemente promovidos pelo marketing.
Pesquisas recentes destacam que a publicidade voltada para o público infantil exerce papel central nesse processo. Análises da mídia televisiva e dos rótulos de produtos mostram como estratégias de marketing utilizam cores, personagens e alegações nutricionais para atrair as crianças e naturalizar o consumo de ultraprocessados (SILVA; OLIVEIRA; MARTINS, 2021; LIMA; TEIXEIRA, 2020). Esse apelo é particularmente forte em famílias de baixa renda, onde tais alimentos representam a alternativa mais barata e acessível.
Um exemplo concreto desse padrão pode ser chamado de fast food do “corre”, caracterizado pelo consumo cotidiano de um salgado (coxinha, joelho, pastel...) acompanhado de um refresco ou guaraná “natural” (xarope de guaraná), muitas vezes antes ou depois do transporte escolar. Esse hábito é motivado por critérios como praticidade, custo reduzido e aceitação pelas crianças. Estudos sobre lanche escolar confirmam que a maioria dos lanches trazidos de casa ou comprados são industrializados, resultado de escolhas familiares orientadas mais pela conveniência do que pela qualidade nutricional (CARVALHO; SANTOS; MELO, 2018; GONÇALVES; PEREIRA, 2019).
Do ponto de vista nutricional, esse padrão se alinha às evidências já consolidadas sobre alimentos ultraprocessados: produtos como salgados fritos e bebidas açucaradas são, segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira e o sistema NOVA, itens de alta densidade energética, ricos em gorduras saturadas, sódio e açúcares adicionados, além de apresentarem baixa quantidade de fibras, vitaminas e minerais (MONTEIRO et al., 2019; BRASIL, 2014). Embora supram momentaneamente a fome, reforçam padrões alimentares associados ao risco de excesso de peso, hipertensão e outras comorbidades ao longo da vida. Apesar de resolver momentaneamente a sensação de fome, esse padrão repetidamente, substituindo refeições, contribui para o risco de excesso de peso e outras complicações em médio e longo prazo. Além disso, reforça a desigualdade alimentar, na medida em que crianças das periferias acabam tendo como refeição principal alimentos de baixa qualidade nutricional.
Educação alimentar e nutricional como ferramenta de mudança
A educação alimentar e nutricional (EAN) é reconhecida como uma das estratégias mais eficazes para enfrentar a obesidade infantil. Pinheiro e Freitas (2021) ressaltam que a EAN vai além da transmissão de informações: envolve práticas pedagógicas que valorizam a cultura alimentar local e promovem escolhas conscientes desde a infância. Nas escolas, por exemplo, projetos que inserem hortas comunitárias e integração da família ao processo educativo têm mostrado resultados positivos.
Essas oficinas culinárias, quando articuladas com práticas pedagógicas culturais e sensoriais, também funcionam como ferramentas de empoderamento alimentar das famílias, favorecendo o preparo doméstico e a autonomia na escolha dos alimentos.
No cenário internacional, destacam-se experiências como o Shokuiku no Japão, que integra educação alimentar ao currículo escolar; o método Sapere na Finlândia, baseado na exploração sensorial dos alimentos; e o programa Crunch & Sip na Austrália, que estimula o consumo de frutas, vegetais e água durante o ambiente escolar. Essas iniciativas mostram que é possível articular políticas públicas e práticas comunitárias para transformar os hábitos alimentares das crianças.
No Brasil, além do Guia Alimentar para a População Brasileira, instrumentos como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que é uma política que garante a oferta de refeições balanceadas e adequadas em escolas públicas de educação básica, representando um dos maiores programas de alimentação escolar do mundo e a Estratégia de Prevenção e Atenção à Obesidade Infantil (Proteja), uma estratégia do Ministério da Saúde voltada especificamente para prevenir e tratar a obesidade infantil, articulando ações intersetoriais que incluem vigilância nutricional, promoção de atividade física e apoio à atenção primária à saúde premiado pela ONU em 2022, já conta com a adesão de mais de 1.300 municípios e reúne ações intersetoriais que vão da vigilância alimentar à promoção de atividade física, com recursos específicos destinados aos territórios mais afetados (BRASIL, 2022).
Nesse contexto, é importante destacar ainda a relevância de políticas sociais de apoio direto às famílias, como o auxílio-gás, política social que cobre até 100% do valor médio de um botijão de gás de 13 kg calculado pela ANP. Em junho de 2024, mais de 5,81 milhões de famílias receberam R$102,00 pelo benefício (BRASIL, 2024). Podem recebê-lo famílias inscritas no Cadastro Único com renda de até meio salário mínimo por pessoa. Esse apoio é essencial, pois, para muitas famílias, a escolha não é entre pão integral e tapioca, mas entre pagar o gás ou garantir alimento na mesa. Dessa forma, ao aliviar esse peso no orçamento, o auxílio-gás pode favorecer o preparo doméstico de refeições mais nutritivas, reduzindo a dependência de alimentos ultraprocessados prontos para consumo.
Essas políticas têm papeis fundamentais, pois demonstram que o enfrentamento da obesidade exige uma abordagem integrada, envolvendo saúde, educação, agricultura e comunidade.
Considerações Finais
A trajetória da nutrição infantil no Brasil revela avanços importantes, mas também novos e profundos desafios que exigem respostas urgentes e integradas. Se a fome calórica foi parcialmente vencida, a epidemia de obesidade infantil evidencia que a luta por uma alimentação adequada ainda está longe de terminar. Esse cenário não diz respeito apenas à quantidade de comida disponível, mas à qualidade do que é ofertado às crianças, especialmente nas periferias e favelas, onde o acesso a alimentos saudáveis é frequentemente inviabilizado por questões econômicas, culturais e estruturais.
Enfrentar a dupla carga da má nutrição – fome e excesso – significa assegurar que políticas públicas como o PNAE e o Proteja sejam fortalecidas e cheguem a quem mais precisa, que benefícios sociais como o auxílio-gás continuem garantindo o direito ao preparo doméstico de refeições dignas, e que ações comunitárias e educativas sejam valorizadas como ferramentas de emancipação e conscientização. Mais do que combater doenças, trata-se de promover saúde, equidade e cidadania desde a infância.
Para avançarmos de forma concreta, é essencial que toda a sociedade reconheça seu papel na construção de ambientes alimentares mais justos. Famílias, escolas, profissionais de saúde, organizações comunitárias, governos municipais, estaduais e federal precisam atuar de forma articulada para garantir não apenas que nossas crianças tenham o suficiente para comer, mas que tenham o direito real de escolher alimentos de qualidade. Nenhuma criança deveria crescer limitada pela falta de opções saudáveis, obrigada a consumir aquilo que é barato, ultraprocessado ou disponível por falta de infraestrutura, tempo ou condições econômicas.
Garantir esse direito não é apenas um ato de cuidado, é um investimento no futuro. Crianças bem nutridas tornam-se adultos mais saudáveis, produtivos, presentes na escola e no trabalho, com maior capacidade de desenvolvimento integral. Construir esse caminho é um compromisso coletivo, e apenas com união entre poder público, sociedade civil e comunidades será possível transformar a realidade alimentar do país. A infância precisa ser prioridade absoluta, e garantir uma nutrição digna é o primeiro passo para transformar vidas, territórios e futuros.
Referências
BATISTA FILHO, M.; RISSIN, A. A queda da desnutrição infantil no Brasil. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, 2018.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Auxílio-gás beneficia mais de 5,8 milhões de famílias em junho com R$ 102,00. 2024.
BRASIL. Ministério da Saúde. Estratégia Brasileira de Prevenção e Atenção à Obesidade Infantil (Proteja). 2022. Disponível em: https://brasil.un.org/.
CARVALHO, A. F.; SANTOS, P. L.; MELO, T. Análise das lancheiras de alunos de 6 a 10 anos em escolas públicas. Revista de Nutrição Escolar, 2018.
COUTINHO, J. G.; GENTIL, P. C.; TORAL, N. Obesidade infantil: como podemos ser eficazes? Ciência & Saúde Coletiva, 2018.
GONÇALVES, M. P.; PEREIRA, L. S. Alimentação escolar e consumo de ultraprocessados. Revista de Saúde e Sociedade, 2019.
LIMA, R.; TEIXEIRA, J. Estratégias de marketing na publicidade televisiva de alimentos ultraprocessados no Brasil. Revista de Comunicação e Saúde, 2020.
MONTEIRO, C. A. et al. Transição nutricional no Brasil de 2000 a 2016, com ênfase na desnutrição e obesidade. Cadernos de Saúde Pública, 2019.
PINHEIRO, A. R.; FREITAS, M. C. Educação alimentar e nutricional no combate à obesidade infantil: visões do Brasil e do mundo. Demetra: Alimentação, Nutrição & Saúde, 2021.
SILVA, A. P.; DIAS, L. F.; CAMPOS, M. C. Obesidade infantil: fatores contribuintes. Revista de Nutrição e Saúde Pública, 2020.
SILVA, L. M.; OLIVEIRA, P. R.; MARTINS, T. Alegações nutricionais e estratégias de marketing em rótulos de alimentos ultraprocessados dirigidos ao público infantil. Revista de Saúde e Consumo, 2021.
SOUZA, R. L.; SILVA, J. M.; GIUGLIANI, E. Internações hospitalares por desnutrição infantil no Brasil: um panorama epidemiológico dos últimos 10 anos. Revista de Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2020.
UNICEF. Alimentando o Lucro: Relatório sobre a Nutrição Infantil 2025. Nova Iorque: UNICEF, 2025.






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