Influenciadores, Performance e a Indústria da Suplementação
- Comunicação Favela In
- 21 de jan.
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O Brasil dos suplementos milagrosos
O Brasil vive um momento em que a saúde parece ter sido encapsulada, medida em gramas e vendida em potes. Nos últimos anos, o mercado de suplementos nutricionais, como proteínas em pó (whey protein), creatina, termogênicos, multivitamínicos, pré-treinos, aminoácidos e compostos vitamínico-minerais, vem crescendo de forma acelerada, impulsionado não apenas por atletas e praticantes de atividade física, mas também por pessoas sedentárias em busca de energia, foco, emagrecimento, melhor desempenho no cotidiano, ou apenas querendo dormir melhor (Rios et al., 2021).
Do ponto de vista científico e sanitário, os suplementos nutricionais são ferramentas terapêuticas indicadas ou prescritas por profissionais de saúde habilitados, como nutricionistas, médicos, biomédicos e, em contextos específicos, farmacêuticos, sempre com base em avaliação individualizada e evidências clínicas. Seu uso é recomendado para situações bem delimitadas, como correção de deficiências nutricionais comprovadas, suporte nutricional em condições clínicas específicas, fases do ciclo vital com maior demanda nutricional ou estratégias voltadas a atletas de alto rendimento, quando a alimentação habitual não é suficiente para suprir as necessidades do organismo (Gomes; Silva, 2019).
Nesse contexto terapêutico, a suplementação atua como complemento e não substituto da alimentação, integrando estratégias de cuidado em saúde que consideram o corpo em sua complexidade biológica, social e cultural. Entretanto, essa lógica clínica e criteriosa tem sido progressivamente deslocada por um modelo de consumo ampliado, que transforma produtos originalmente pensados para situações específicas em soluções genéricas para o cotidiano.
Estudos mostram que a expansão do mercado de suplementos está diretamente ligada à consolidação do estilo de vida fitness e da cultura da performance, transformando o suplemento em um consumo cotidiano e não mais restrito a necessidades clínicas ou esportivas (Rios et al., 2020).
O que antes era uma ferramenta terapêutica, indicada para casos específicos, como deficiência nutricional ou atletas de alto rendimento, passou a ser utilizado como solução rápida para qualquer desconforto: cansaço, estresse, sono, falta de concentração ou desejo estético imediato. Pesquisas recentes apontam que o acesso facilitado, a ampla publicidade e a banalização dos riscos têm contribuído para que o suplemento se torne um hábito diário, muitas vezes sem orientação profissional e sem compreensão das possíveis consequências (Gomes & Silva, 2019).
Esse movimento é reforçado pela promessa contemporânea de produtividade constante. Em uma sociedade que cobra energia ilimitada e corpos alinhados ao padrão fitness, suplementos são apresentados como atalhos para uma vida mais "eficiente". A análise de propagandas japonesas, por exemplo, revela a associação entre suplementação e autossuficiência corporal, destacando narrativas que sugerem que o corpo, por si só, não dá conta, precisa ser complementado, turbinado, otimizado (Kamei et al., 2021). Esse discurso ecoa nas redes sociais, especialmente entre influenciadores fitness que divulgam rotinas intensas, múltiplos produtos e uma estética corporal inalcançável para a maioria.
Enquanto a indústria vende a imagem de saúde e bem-estar, a cobrança implícita por produtividade, foco, disciplina e um corpo performático recai sobre cada indivíduo. Para quem vive nas favelas, onde os desafios cotidianos já são intensos, esse discurso chega atravessado por profundas desigualdades sociais: a promessa do corpo ideal e do máximo rendimento aparece como solução mágica, mesmo quando o acesso à alimentação adequada e aos serviços de saúde é limitado. Soma-se a isso o fator tempo, frequentemente invisibilizado nesses discursos. Nem todas as pessoas dispõem das mesmas 24 horas para cuidar do corpo, descansar, treinar ou preparar refeições saudáveis. Jornadas extensas de trabalho, longos deslocamentos e múltiplas responsabilidades reduzem o tempo disponível para o autocuidado, fazendo com que a suplementação seja apresentada como atalho para compensar o cansaço e a sobrecarga cotidiana, sobretudo em contextos periféricos (Rios et al., 2021).
Medicalização no cotidiano
A popularização dos suplementos transformou experiências humanas básicas, como cansaço, falta de foco ou noites mal dormidas, em sinais de deficiência que supostamente exigem correção imediata por meio de cápsulas e pós. Essa lógica de "sentiu algo, toma algo" contribui para uma medicalização do cotidiano, na qual o corpo natural é percebido como insuficiente e permanentemente em débito. Estudos indicam que esse fenômeno é alimentado não apenas pela publicidade direta, mas também por narrativas que associam suplementação à ideia de normalidade, autocuidado e eficiência, amplamente disseminadas por propagandas e influenciadores digitais (Kamei et al., 2021).
Nesse contexto, a indústria da suplementação atua como engrenagem de um modelo produtivista mais amplo, ao oferecer soluções que permitem manter o trabalhador ativo e produtivo mesmo em condições de esgotamento físico e mental. Ao invés de questionar jornadas excessivas, precarização do trabalho e ausência de descanso adequado, o consumo de suplementos é incentivado como estratégia para sustentar ritmos intensos de produção, o que pode comprometer a saúde mental e reforçar a naturalização do cansaço crônico como falha individual, e não como problema estrutural (Almeida et al, 2020; Rios et al, 2021).
Essa medicalização cria uma relação distorcida com o próprio corpo: em vez de compreender sinais como parte do ciclo natural de esforço e recuperação, o sujeito passa a interpretá-los como falhas que precisam ser silenciadas. Pesquisas sobre riscos e benefícios dos suplementos mostram que a banalização do consumo está profundamente ligada a esse imaginário, em que suplementos aparecem como soluções rápidas para problemas cotidianos, mesmo quando não há evidências de necessidade fisiológica (Rios et al., 2020). Esse uso indiscriminado, além de normalizar a dependência de substâncias para lidar com aspectos básicos da vida, aumenta a exposição a efeitos adversos, especialmente entre jovens, um dos grupos mais suscetíveis às promessas de desempenho e produtividade (Costa et al., 2022).
A literatura também revela que a influência de formadores de opinião reforça a percepção de que suplementar é um comportamento esperado e até desejável. Influenciadoras fitness, por exemplo, frequentemente enquadram suplementos como parte de uma rotina "ideal" de cuidado, aproximando-os de produtos de uso diário, como cosméticos, o que contribui para a perda de noção de risco e para a naturalização do consumo (Souza, 2021). Assim, a medicalização no cotidiano não surge apenas da indústria, mas também da cultura digital que vende a ideia de que o corpo precisa ser constantemente corrigido, regulado e otimizado.
O mercado bilionário da suplementação
O mercado de suplementos cresceu de forma exponencial nas últimas décadas, movido por tendências globais de saúde, estética e performance. Estimativas internacionais e análises de mercado apontam receitas na casa dos bilhões de dólares anuais, com um crescimento contínuo impulsionado pela demanda por produtos que prometem resultados rápidos (Salazar; Garcia, 2019). No Brasil, essa expansão acompanha o aumento da prática de atividades físicas e a consolidação da cultura fitness, que transformou o suplemento em um item de consumo massificado, presente em academias, farmácias e lojas online (Verdan; et al., 2021).
As análises dos estudos mostram prevalências elevadas de uso em diferentes populações: pesquisas em jovens adultos, estudantes e praticantes de atividade física relatam porcentagens de uso que variam bastante entre países, chegando a índices superiores a 60% em alguns contextos, reflexo de fatores demográficos, culturais e de marketing (Altarrah et al., 2024). Essa heterogeneidade revela tanto a penetração do mercado quanto a influência de variáveis como gênero, idade e nível educacional sobre o consumo.
Por trás do crescimento estão atores com interesses contrastantes: a indústria e as marcas (fabricantes, distribuidores e agências de marketing) obtêm altos lucros com vendas e estratégias de promoção, influenciadores e formadores de opinião ampliam o alcance desses produtos e monetizam recomendações, enquanto consumidores, muitas vezes mal informados, assumem os riscos do uso indiscriminado. Além destes atores, quem também “lucra” com a cultura da alta performance é o mundo do trabalho, pois a lógica produtivista se beneficia de corpos constantemente estimulados a manter níveis elevados de rendimento, mesmo diante de cansaço, adoecimento ou sobrecarga emocional. A suplementação passa a operar como ferramenta simbólica e prática para sustentar jornadas extensas, metas excessivas e a ideia de disponibilidade permanente, deslocando para o indivíduo a responsabilidade por lidar com limites físicos e mentais que são, em grande medida, produzidos pelas próprias condições de trabalho. No lado não econômico, quem arrisca são sobretudo jovens, pessoas que se automedicam sem orientação e populações vulneráveis, que podem sofrer efeitos adversos e arcar com custos de saúde decorrentes do consumo inadequado (Verdan et al., 2021; Ricke; Seifert, 2024).
Essa assimetria entre quem lucra e quem arrisca coloca em evidência a necessidade de políticas públicas mais efetivas, vigilância de efeitos adversos e campanhas educativas que considerem os determinantes sociais do consumo.
O papel dos influenciadores
Os influenciadores fitness se tornaram figuras centrais na difusão da cultura da suplementação, desempenhando um papel que vai além da simples recomendação de produtos. Eles operam como mediadores de valores, comportamentos e estilos de vida, utilizando seus próprios corpos como vitrines de sucesso e disciplina. A construção desse personagem, forte, produtivo, estético, sempre em alta performance, cria um ideal aspiracional que influencia diretamente a percepção do público sobre o que é ser saudável. Estudos sobre marketing de influência nas redes sociais mostram que essas figuras se posicionam como autoridades informais, muitas vezes sem formação técnica, tornando suas recomendações ainda mais impactantes (Souza, 2021).
Uma das estratégias mais utilizadas é a naturalização do consumo: suplementos aparecem como partes intrínsecas da rotina, integrados ao dia a dia como se fossem elementos tão básicos quanto água ou café da manhã. Publicações exibindo o “combo” de produtos, rotinas de treinos intensos e uma agenda hiperprodutiva reforçam a ideia de que desempenho excepcional só é possível com ajuda suplementar. Essa estética aspiracional dialoga com o desejo de eficiência constante e com a pressão por resultados rápidos, elementos centrais do mercado fitness contemporâneo. Pesquisas sobre a construção social desse mercado destacam que o Instagram, em especial, funciona como um palco onde corpos moldados e altamente performáticos são utilizados como estratégia mercadológica (Almeida et al., 2020).
Além disso, estudos internacionais revelam um problema crescente: a desinformação disseminada por esses influenciadores. Pesquisas realizadas na Alemanha identificaram que grande parte das recomendações feitas por influenciadores sobre suplementos contém informações imprecisas, exageradas ou totalmente falsas, geralmente omitindo riscos e efeitos adversos (Kühn et al., 2022). Essa tendência não é isolada; análises no Brasil também apontam a superficialidade das informações divulgadas, bem como a presença de publicidade mascarada, posts que parecem dicas espontâneas, mas são, na verdade, conteúdo patrocinado (Souza, 2021). Essa prática contribui para o consumo impulsivo, baseado mais na identificação afetiva com o influenciador do que em evidências científicas.
Esse ecossistema cria um ciclo: influenciadores promovem produtos que prometem transformar o corpo; seguidores, inspirados ou pressionados, consomem; marcas faturam; e os riscos recaem sobre quem compra. Em um país marcado por desigualdades, esse processo afeta especialmente adolescentes e pessoas de baixa renda, que podem ver nos corpos idealizados dos influenciadores uma promessa de pertencimento e ascensão que, na prática, é inacessível e perigosa.
Riscos e efeitos adversos (e o que a ciência realmente mostra)
A expansão do consumo de suplementos alimentares veio acompanhada de um aumento significativo dos efeitos adversos relatados na literatura científica. Estudos indicam que o uso indiscriminado desses produtos pode resultar em quadros de toxicidade, superdosagens e interações medicamentosas potencialmente graves (Ricke; Seifert, 2024). Revisões internacionais apontam que uma parcela expressiva desses eventos ocorre entre indivíduos saudáveis, que utilizam suplementos sem indicação clínica e sem acompanhamento profissional, motivados principalmente por objetivos estéticos, produtivos ou de desempenho físico (Ricke; Seifert, 2024). Entre os efeitos adversos mais frequentemente descritos estão alterações gastrointestinais, arritmias, hipertensão, danos hepáticos, convulsões e reações alérgicas, muitas vezes associadas a produtos comercializados como “naturais”.
Um ponto crítico amplamente destacado nos estudos é a maior vulnerabilidade de crianças, adolescentes e jovens adultos. Pesquisas indicam que esses grupos apresentam maior exposição à pressão estética e ao marketing de influência nas redes sociais, além da promessa de melhora no desempenho acadêmico e esportivo, fatores que contribuem para o consumo com baixa percepção de risco (Ribeiro et al., 2023; Souza, 2021). Estudos realizados com adolescentes e jovens adultos mostram que uma parcela significativa desses indivíduos relatou já ter experimentado efeitos adversos após o uso de suplementos, incluindo palpitações, ansiedade, irritabilidade, náuseas, dores abdominais e distúrbios do sono (Ribeiro et al., 2023; Altarrah et al., 2024). Em alguns casos, foi observado o uso simultâneo de múltiplos produtos, o que aumenta consideravelmente o risco de eventos tóxicos, especialmente quando há associação com estimulantes ou substâncias pró-hormonais.
Outro aspecto relevante identificado na literatura é a subnotificação dos casos de toxicidade relacionados ao consumo de suplementos alimentares. Muitos usuários não associam os sintomas apresentados ao uso desses produtos, em grande parte devido à crença de que substâncias classificadas como “naturais” são inerentemente seguras (Ricke; Seifert, 2024). Além disso, estudos demonstram a presença de ingredientes contaminados, dosagens imprecisas e substâncias não declaradas nos rótulos, incluindo estimulantes não autorizados e compostos análogos a esteroides, o que amplia significativamente os riscos à saúde dos consumidores (Gomes; Silva, 2019; Ricke; Seifert, 2024).
A fragilidade dos mecanismos regulatórios constitui, portanto, um eixo central desse problema. Em diversos países, incluindo o Brasil, os suplementos alimentares estão sujeitos a processos de fiscalização menos rigorosos do que os medicamentos, permitindo a comercialização de produtos com alegações de saúde sem comprovação científica adequada e com controle limitado da composição. Soma-se a isso a fragilidade dos sistemas de notificação de eventos adversos, o que dificulta a identificação precoce de produtos potencialmente perigosos e o desenvolvimento de respostas sanitárias eficazes. Nesse cenário, o consumidor, especialmente aquele motivado pela busca de resultados rápidos, torna-se o principal responsável por assumir riscos muitas vezes invisibilizados.
Dessa forma, a literatura científica é consistente ao demonstrar que, apesar da imagem de inofensividade construída pelo marketing, os suplementos alimentares não são neutros. Sem orientação profissional adequada e sem regulação eficaz, seu uso pode resultar em danos significativos à saúde individual e coletiva.
A cultura da alta performance: quando saúde vira obrigação
A chamada cultura da alta performance tem redefinido o significado contemporâneo de saúde, deslocando-o do campo do cuidado para o campo da exigência permanente. Nesse contexto, o bem-estar passa a ser condicionado ao rendimento contínuo, à produtividade ininterrupta e à adequação a padrões estéticos específicos, produzindo a ideia de que o corpo é um projeto inacabado, que precisa ser constantemente otimizado (Almeida et al., 2020). A saúde deixa de ser compreendida como processo e passa a ser tratada como resultado mensurável, frequentemente associado ao consumo de produtos e à adoção de rotinas extremas.
Os influenciadores digitais, a indústria fitness e o marketing de suplementos desempenham papel central na consolidação desse modelo ao promoverem narrativas que associam disciplina, autocontrole e consumo contínuo à noção de sucesso pessoal. Estudos sobre marketing de influência indicam que esses discursos reforçam a responsabilização individual pelo desempenho corporal, invisibilizando determinantes sociais e estruturais da saúde (Souza, 2021). Para o indivíduo comum, essa lógica se traduz em uma pressão constante: se o corpo não responde, se a produtividade cai ou se os resultados estéticos não aparecem, a falha é atribuída à ausência de algum produto ou estratégia de consumo.
Essa lógica da alta performance se manifesta de forma ainda mais intensa em contextos de vulnerabilidade social, onde desigualdades estruturais atravessam o acesso à alimentação adequada, aos serviços de saúde e à informação de qualidade. A promessa de transformação rápida e de pertencimento a um ideal corporal hegemônico torna jovens de baixa renda especialmente vulneráveis a estratégias de mercado que oferecem suplementos como atalhos para ascensão simbólica e reconhecimento social (Rios; et al., 2021). Nesse cenário, enquanto alimentos in natura e práticas de cuidado sustentáveis permanecem pouco acessíveis, os suplementos surgem como soluções aparentemente viáveis, porém associadas a riscos elevados quando consumidos sem orientação profissional.
Assim, a cultura da alta performance evidencia uma inversão no discurso do cuidado: a indústria prioriza o lucro, os influenciadores respondem a métricas de engajamento e o consumidor assume, de forma solitária, os custos físicos, emocionais e sociais desse modelo. Trata-se de um sistema que se apresenta como promotor de saúde, mas que opera fundamentalmente por meio da cobrança, da insegurança corporal e da naturalização de padrões inalcançáveis
O suplemento nunca vem sozinho
Os suplementos, apesar de amplamente promovidos como ferramentas de saúde, carregam consigo um conjunto de mensagens sociais, pressões estéticas e interesses econômicos que moldam comportamentos e percepções sobre o corpo. O consumo desenfreado, impulsionado pelo marketing e pela cultura da performance, cria a falsa ideia de que a solução para qualquer dificuldade, como o cansaço, a baixa energia, falta de foco ou insatisfação com a estética, está em um pote. Entretanto, a literatura científica demonstra que, junto aos possíveis benefícios, emergem riscos reais à saúde, efeitos adversos e profundas desigualdades no acesso à informação qualificada e ao cuidado profissional (Ricke; Seifert, 2024; Ribeiro et al., 2023).
Diante desse cenário, torna-se fundamental reforçar a necessidade de evitar a automedicação nutricional. O uso de suplementos deve ser precedido por avaliação clínica individualizada, realizada por profissionais de saúde habilitados, como nutricionistas, médicos e biomédicos, com base em exames laboratoriais e na análise das condições de saúde, do contexto social e das necessidades reais de cada indivíduo (Gomes; Silva, 2019). No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), serviços como a Clínica da Família e as Unidades Básicas de Saúde representam espaços legítimos de acolhimento, orientação e promoção do cuidado, especialmente em territórios com a população de baixa renda, onde o acesso à informação confiável e à assistência especializada é historicamente desigual.
Além da dimensão individual, o enfrentamento dos riscos associados ao consumo indiscriminado de suplementos exige ações estruturais e regulatórias. Nesse sentido, destaca-se a recente regulamentação da atividade de influenciadores digitais no Brasil, por meio da Lei nº 15.325/2026, que reconhece a atuação profissional desses produtores de conteúdo no ambiente digital (Brasil, 2026). Embora represente um avanço institucional, análises críticas apontam que a legislação ainda carece de mecanismos específicos para coibir a disseminação de desinformação em áreas sensíveis, como saúde e alimentação, não exigindo formação técnica nem estabelecendo responsabilização clara por conteúdos potencialmente danosos ao público (Estadão Conteúdo, 2026).
O fortalecimento de políticas públicas voltadas à fiscalização do livre comércio de suplementos, à transparência das informações veiculadas nas redes sociais e à responsabilização de práticas publicitárias enganosas é, portanto, indispensável. Regular a atuação de influenciadores e proteger o consumidor, não se trata de censura, mas de garantia do direito à saúde, à informação adequada e à tomada de decisão consciente.
Em síntese, o suplemento nunca vem sozinho: ele carrega narrativas, cobranças e riscos. Compreender essa dinâmica é o primeiro passo para resgatar o cuidado em seu sentido mais amplo e ético, aquele que não se apoia em promessas milagrosas, não transfere responsabilidades ao indivíduo isoladamente e não mercantiliza o sofrimento, mas que se constrói a partir da informação baseada em evidências, da autonomia crítica e do compromisso coletivo com a saúde.
Referências
ALMEIDA, L.; SILVA, M.; CARVALHO, R. A construção social do mercado fitness a partir da rede Instagram: uma contribuição da sociologia econômica sobre o marketing de influência. 2020.
ALTARRAH, R. et al. A cross-sectional study of self-reported dietary supplement use, associated factors, and adverse events among young adults in Kuwait. 2024.
BRASIL. Lei nº 15.325, de 6 de janeiro de 2026. Regulamenta a atividade de influenciadores digitais no Brasil. Diário Oficial da União: Brasília, 2026.
ESTADÃO CONTEÚDO. Entenda a lei assinada por Lula que regulamenta a atividade de influenciadores digitais. InfoMoney, 2026.
GOMES, F.; SILVA, J. Riscos e benefícios da utilização de suplementos nutricionais na prática de atividade física. 2019.
KAMEI, T. et al. A content analysis of video advertisements for dietary supplements in Japan. 2021.
KÜHN, S. et al. Disinformation on dietary supplements by German influencers on Instagram. 2022.
RIBEIRO, A. et al. Avaliando os efeitos nocivos dos suplementos alimentares em crianças, adolescentes e jovens adultos. 2023.
RICKE, S.; SEIFERT, S. Adverse effects of nutraceuticals and dietary supplements. 2024.
RIOS, L.; SANTOS, P.; SENNA JUNIOR, J. A indústria de suplementos. 2021.
SOUZA, C. Disseminação da informação por formadores de opinião em redes sociais: uma pesquisa com influenciadoras fitness. 2021






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