A saída do Brasil do Mapa da Fome significa que a população tem acesso a uma alimentação saudável?
- Comunicação Favela In
- 21 de ago. de 2025
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Atualizado: 28 de ago. de 2025
Em 2025, o relatório Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (SOFI – State of Food Security and Nutrition in the World), elaborado por agências das Nações Unidas, anunciou que o Brasil havia deixado novamente o Mapa da Fome da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). A taxa de desnutrição no país foi reduzida para menos de 2,5% da população, retomando o patamar alcançado em 2014. Esse avanço representa um marco significativo no enfrentamento da fome extrema. Contudo, o mesmo relatório aponta uma queda no percentual de brasileiros que mantêm uma dieta saudável: de 29,8% em 2021 para 23,7% em 2024. Diante disso, emerge a questão central: a redução da fome extrema assegura, de fato, o acesso universal a uma alimentação adequada e nutritiva?
Alimentação saudável e sua importância
Desde a gestação, a alimentação exerce papel fundamental no desenvolvimento humano. O contato inicial com nutrientes ocorre via placenta e, após o nascimento, pelo aleitamento materno, primeira forma de alimentação saudável recomendada até os seis meses de idade, conforme orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2001). Ao longo da vida, passamos por diferentes fases que influenciam nosso contato e relação com a comida, sendo a introdução alimentar um marco importante. Esse processo, que geralmente se inicia por volta dos seis meses, permite que a criança tenha contato com diferentes texturas, sabores e cores, ampliando o repertório alimentar e auxiliando no desenvolvimento do paladar. É nesse momento que a educação alimentar começa a se consolidar, pois a variedade e a qualidade dos alimentos oferecidos influenciam diretamente as escolhas futuras. Nessa trajetória, os alimentos podem ser classificados em três grupos principais: “in natura”, processados e ultraprocessados, conforme definido pelo Guia Alimentar para a População Brasileira (Ministério da Saúde, 2014). Os alimentos “in natura”, como frutas, legumes, verduras, grãos e carnes frescas, são consumidos em seu estado natural ou minimamente alterados, sendo ricos em nutrientes, fibras, vitaminas e minerais, promovendo saúde e longevidade. Os processados, como pães, queijos e conservas, passam por alterações para aumentar sua durabilidade ou realçar seu sabor, mas ainda podem fazer parte de uma dieta equilibrada quando consumidos com moderação. Já os ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos e biscoitos industrializados, são formulações industriais com alto teor de sódio, açúcares e gorduras saturadas, associados ao aumento do risco de doenças crônicas não transmissíveis. Esses produtos, como destacam Estima (2020) e outros autores, acabam moldando hábitos alimentares, e suas escolhas estão profundamente ligadas a múltiplos fatores.
Como você escolhe o que come?
A forma como escolhemos nossos alimentos é resultado da interação de diversos elementos que se sobrepõem e se influenciam mutuamente (Estima, 2020). Aspectos biológicos incluem necessidades energéticas e nutricionais específicas de cada fase da vida, condições de saúde que exigem dietas especiais e preferências gustativas inatas, como a tendência a buscar sabores doces e gordurosos. Fatores emocionais, como comer para lidar com estresse ou ansiedade, se somam a aspectos culturais e econômicos, que refletem tradições alimentares, poder aquisitivo e a disponibilidade local de alimentos. Além disso, o marketing exerce papel determinante: estratégias publicitárias associam ultraprocessados a prazer, status e conveniência, com campanhas muitas vezes direcionadas a crianças e adolescentes. Esse cenário contribui para a criação de hábitos que persistem por anos e impactam negativamente a saúde pública.
Para enfrentar essas influências e garantir escolhas mais saudáveis, é essencial saber como montar uma refeição equilibrada. De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira (Ministério da Saúde, 2014), isso significa combinar carboidratos complexos, como arroz, macarrão, batata-doce, com proteínas magras, como peixes, frango e leguminosas, acrescentando gorduras boas, presentes no azeite de oliva e nas oleaginosas, e fibras, encontradas em verduras e frutas. Esse equilíbrio não apenas fornece energia adequada e promove saciedade, mas também contribui para a prevenção de doenças crônicas. No entanto, a possibilidade de adotar esse padrão alimentar depende diretamente do ambiente em que se vive: quando há fácil acesso a alimentos frescos e de qualidade, as escolhas saudáveis se tornam mais viáveis; já em contextos marcados pela carência de opções adequadas, manter uma dieta equilibrada se torna um desafio diário. Soma-se a isso o fator tempo: a rotina corrida de grande parte da população, marcada por longas jornadas de trabalho e deslocamentos, frequentemente limita o preparo de refeições caseiras e favorece a adesão a opções rápidas, geralmente ultraprocessadas. Estudos como os de Claro e Monteiro (2018) apontam que a falta de tempo é um dos determinantes contemporâneos mais relevantes para a substituição de refeições saudáveis por alternativas práticas, mas pouco nutritivas.
Nesse sentido, a transição para um padrão alimentar saudável se torna ainda mais complexa em áreas conhecidas como “pântanos alimentares” e “desertos alimentares”. Os pântanos alimentares são regiões onde a oferta predominante é de alimentos ultraprocessados, de baixo valor nutricional e alto teor calórico, enquanto os alimentos frescos e saudáveis estão disponíveis em menor quantidade ou a preços inacessíveis. Já os desertos alimentares se caracterizam pela ausência quase total de pontos de venda de alimentos “in natura” ou minimamente processados, obrigando a população a recorrer a opções pouco nutritivas. Nesses contextos, as barreiras ao acesso dificultam a aplicação prática das orientações para uma alimentação equilibrada. Como destacam Caivano et al. (2017), a atuação da indústria, por meio de lobby e parcerias institucionais, frequentemente dificulta regulações e favorece a expansão de um ambiente alimentar que não promove saúde.
Iniciativas, projetos e ações sociais
A superação da insegurança alimentar e a promoção de hábitos saudáveis não dependem apenas de políticas públicas de grande escala, mas também de iniciativas locais que articulam educação, sustentabilidade e geração de renda. Nesse sentido, projetos comunitários desempenham um papel estratégico ao transformar realidades sociais, criar oportunidades e ampliar o acesso a alimentos frescos e nutritivos.
Um exemplo significativo é o projeto Horta na Favela, desenvolvido na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro. Idealizado por Flávio Gomes e ampliado em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, o projeto surgiu com o objetivo de ressignificar áreas ociosas das lajes, transformando-as em espaços produtivos. Hoje, a iniciativa promove a compostagem, o cultivo de hortaliças, frutas e plantas alimentícias não convencionais (PANCs), além da criação de abelhas sem ferrão para produção de mel. Além de fortalecer a segurança alimentar local, a ação gera renda para dezenas de famílias, fomenta práticas de sustentabilidade e cria oportunidades de educação alimentar para crianças e jovens. Como enfatiza Gomes, “um dia, a Rocinha vai voltar à sua origem agrícola, plantando em pequenos espaços, mas que vão ter uma relevância muito grande nas mudanças de hábitos”. A fala evidencia a potência transformadora do projeto, que alia produção de alimentos à consciência ambiental e social.
Outro exemplo é a Gastromotiva, organização não governamental fundada em 2006, que utiliza a gastronomia como ferramenta de transformação social. Desde 2006, atua no combate à fome e à insegurança alimentar por meio da educação profissional, distribuição de refeições e geração de renda. Uma das suas iniciativas mais emblemáticas é o Refettorio Gastromotiva, um restaurante-escola inaugurado durante as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Nesse espaço, alunos da instituição e chefs voluntários transformam alimentos que seriam desperdiçados em refeições nutritivas, promovendo dignidade e inclusão social.
Além disso, o Programa de Cozinhas Solidárias, lançado em 2020, fortalece a atuação da ONG em territórios vulneráveis. Por meio dele, microempreendedores, cozinheiros comunitários e lideranças locais recebem apoio logístico, insumos e formação para produzir e distribuir refeições saudáveis em suas comunidades. Em Salvador, por exemplo, o projeto foi implementado com o apoio do Instituto BRF, permitindo a implantação de cozinhas comunitárias, aproveitamento integral dos alimentos (incluindo cascas e talos para reduzir desperdício), formação em empreendedorismo social e ainda bolsa-auxílio para os agentes locais. Essas ações demonstram como iniciativas comunitárias e transformadoras podem gerar impacto social real e sustentável, unindo educação, nutrição, renda e inclusão.
Considerações finais
A retirada do Brasil do Mapa da Fome representa um marco importante no combate à fome extrema, mas não significa que todos os brasileiros tenham acesso garantido a uma alimentação saudável e equilibrada. A queda no consumo de dietas saudáveis evidenciada pelos dados recentes mostra que a segurança alimentar plena exige mais do que a superação da desnutrição: é necessário assegurar o acesso físico, econômico e cultural a alimentos frescos e nutritivos em todo o território nacional.
Para isso, é fundamental a implementação de políticas públicas integradas que fortaleçam equipamentos e programas de segurança alimentar, incentivem a agricultura familiar, ampliem a educação alimentar e nutricional e regulem de forma eficaz a publicidade de ultraprocessados. Experiências como o projeto Horta na Favela e as ações da Gastromotiva evidenciam o potencial transformador de iniciativas comunitárias que unem geração de renda, combate ao desperdício e promoção da alimentação saudável.
Somente com o alinhamento entre Estado, sociedade civil, setor privado e comunidades será possível garantir que os avanços na redução da fome se traduzam também em melhorias duradouras na qualidade da alimentação e na saúde da população brasileira.
Referências
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