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Entre a formação e a desvalorização: os desafios dos professores da rede pública no ensino fundamental e médio

A educação ocupa lugar central nos projetos de desenvolvimento social, sendo frequentemente associada à redução das desigualdades. No entanto, no Brasil, essa centralidade não se reflete plenamente na valorização dos professores (Pereira; Oliveira, 2016a). Há um descompasso entre o reconhecimento formal da importância docente e as condições concretas de exercício da profissão (Pereira; Oliveira, 2016a). Nesse sentido, a desvalorização histórica do magistério se expressa em fatores como baixos salários, sobrecarga de trabalho e pouco prestígio social (Barbosa, 2013). Essa realidade evidencia que a valorização docente ainda é permeada por disputas políticas e projetos educacionais distintos, o que dificulta sua consolidação (Carvalho; Ferraz; Mororó, 2023). No âmbito específico da rede pública de ensino fundamental e médio, esse cenário assume contornos ainda mais evidentes, pois são esses professores que lidam cotidianamente com as maiores defasagens estruturais do sistema educacional brasileiro. Diante desse contexto, questiona-se: como a desvalorização profissional impacta o trabalho e a permanência dos professores da rede pública do ensino fundamental e médio no Brasil?


A formação docente como base da profissionalização


A formação docente deve ser compreendida como um processo contínuo, que ultrapassa a formação inicial e se estende ao longo de toda a carreira. Segundo Kusznerik e Schneckenberg (2018), a formação continuada é um elemento essencial para a valorização profissional, pois contribui para o desenvolvimento de competências pedagógicas e para o fortalecimento da identidade docente. Nesse contexto, esse processo não pode ser visto apenas como aquisição de técnicas, mas como um processo reflexivo (Fernandes; Rosa, 2023).


Além das contribuições apontadas por Kusznerik e Schneckenberg (2018), outro ponto relevante é o fortalecimento da autonomia docente. Quando o processo formativo é colaborativo e contextualizado, a formação contribui para que o professor atue de forma mais crítica e independente, deixando de ser apenas executor de conteúdos (Fernandes; Rosa, 2023). Entretanto, há desafios na forma como essa formação é implementada. Em muitos casos, ela ocorre de maneira pontual, técnica e descontextualizada, o que reduz sua efetividade. Além disso, pode assumir um caráter de responsabilização individual, aumentando a pressão sobre o professor (Penna, 2025).


Sob essa perspectiva, a formação também está ligada à valorização simbólica da profissão, pois reconhece o docente como um profissional intelectual. No entanto, para ser efetiva, precisa estar articulada a condições adequadas de trabalho e políticas mais amplas de valorização. Logo, investir em formação significa reconhecer o professor como sujeito ativo do processo educativo, capaz de produzir conhecimento e intervir criticamente na prática pedagógica (Siquiera; Freitas, 2022). 


Entre avanços legais e limitações concretas


O Brasil apresenta, nas últimas décadas, avanços significativos no campo normativo voltado à valorização docente, evidenciando um reconhecimento formal da centralidade do professor para a qualidade da educação. A instituição do piso salarial nacional do magistério, a previsão de planos de carreira e as metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação (PNE) sinalizam um esforço de estruturar a profissão com base em critérios de valorização e profissionalização (Brasil, 2008; Brasil, 2014). No entanto, esse conjunto de dispositivos legais convive com uma realidade marcada por desigualdades e dificuldades de implementação, revelando um cenário em que o avanço jurídico não se traduz, necessariamente, em melhorias concretas no cotidiano dos professores.


Um dos principais desafios diz respeito ao cumprimento efetivo do piso salarial. Embora estabelecido como direito, muitos estados e municípios enfrentam limitações orçamentárias ou alegam dificuldades financeiras para sua aplicação integral, o que gera disparidades regionais e compromete a equidade na valorização da carreira (Brasil, 2008). Além disso, mesmo quando o piso é cumprido, ele nem sempre é suficiente para garantir condições dignas de vida, levando muitos professores a assumirem múltiplos vínculos empregatícios, o que intensifica a jornada de trabalho e impacta negativamente a qualidade do ensino (Gatti; Barreto, 2009).


Outro ponto crítico refere-se aos planos de carreira, que, embora previstos em lei, nem sempre são estruturados de forma atrativa. Em muitos casos, a progressão profissional é lenta, pouco transparente ou desvinculada de processos formativos consistentes, o que desestimula o desenvolvimento profissional (Oliveira, 2004; Gatti; Barreto, 2009). Como destacam Pereira e Oliveira (2016b), a valorização do magistério permanece situada entre o legalmente instituído e o efetivamente praticado, evidenciando a fragilidade na materialização dessas políticas.


No que se refere especificamente aos professores de ensino fundamental e médio da rede pública, os impactos dessas lacunas legais são diretos. A ausência de reconhecimento das atividades extraclasse na jornada oficial leva muitos desses profissionais a trabalharem além do contratado sem a devida remuneração, o que contribui para o adoecimento, o desengajamento e, em casos mais graves, o abandono da carreira. Estudos indicam que a insatisfação com as condições de trabalho e a remuneração inadequada são fatores determinantes na decisão de deixar o magistério público (Gatti; Barreto, 2009).


Outro aspecto relevante é a heterogeneidade do sistema educacional brasileiro, que atribui a estados e municípios a responsabilidade pela educação básica. Essa descentralização, embora importante para atender às especificidades locais, também contribui para a desigualdade na implementação das políticas de valorização, já que diferentes redes de ensino possuem capacidades distintas de investimento e gestão (Brasil, 1996; Saviani, 2007). Dessa forma, observa-se que a existência de um arcabouço legal robusto não é suficiente para garantir a valorização docente. É necessário que haja articulação entre legislação, financiamento adequado e mecanismos eficazes de implementação e fiscalização (Pereira; Oliveira, 2016a).


A valorização docente em perspectiva ampliada


O reconhecimento da docência deve ser compreendido como um fenômeno multidimensional, que ultrapassa a ideia restrita de remuneração ou formação. Problemas como sobrecarga de tarefas, ausência de infraestrutura e jornadas extensas impactam diretamente o desenvolvimento profissional e a qualidade do ensino. De acordo com Jacomini e Penna (2016), a valorização docente está diretamente relacionada à organização da carreira, à jornada de trabalho e aos incentivos à formação continuada, sendo esses elementos indissociáveis de qualquer política efetiva voltada ao magistério.


Além das condições materiais, a valorização envolve também a dimensão simbólica da profissão. O reconhecimento social do professor influencia diretamente sua identidade profissional e seu nível de engajamento (Weber, 2003). Mendes, Marcolino e Araújo (2022) apontam que a desvalorização social está historicamente associada à ideia de docência como vocação, o que contribui para a naturalização de condições precárias de trabalho. No âmbito da rede pública de ensino fundamental e médio, esse processo afeta diretamente a atração e a permanência de profissionais qualificados, configurando um ciclo que compromete a qualidade do ensino ofertado à população mais vulnerável.


É preciso considerar, ainda, que o discurso da valorização pode coexistir com práticas de precarização (Penna, 2025). Determinadas políticas, embora apresentadas como estratégias de reconhecimento profissional, podem intensificar o controle sobre o trabalho docente e ampliar a responsabilização individual dos professores (Carvalho; Ferraz; Mororó, 2023). Isso evidencia a necessidade de uma análise crítica das iniciativas educacionais, de modo a distinguir avanços reais de medidas que apenas reforçam desigualdades já existentes.


O papel estratégico das políticas públicas


As políticas públicas são responsáveis por estruturar as condições de formação, carreira e trabalho dos professores, mas sua efetividade depende de fatores que vão além da existência de diretrizes legais. A descontinuidade das ações governamentais é um dos principais obstáculos: mudanças frequentes de orientação política resultam na interrupção de programas educacionais, comprometendo estratégias de longo prazo e gerando instabilidade no sistema (Carvalho; Ferraz; Mororó, 2023). A isso se soma a desigualdade no financiamento, que faz com que as políticas de valorização se concretizem de forma heterogênea entre estados e municípios (Jacomini; Penna, 2016).


O Plano Nacional de Educação (PNE 2014–2024) representa um avanço ao articular metas de formação, carreira e condições de trabalho de forma integrada. Contudo, sua efetividade depende do comprometimento dos diferentes níveis de governo com a implementação e o monitoramento das ações previstas. Para os professores de ensino fundamental e médio da rede pública, a ausência de políticas contínuas e bem financiadas se traduz em maior rotatividade docente, especialmente em escolas localizadas em regiões de maior vulnerabilidade social, o que prejudica tanto os profissionais quanto os estudantes, afetados pela descontinuidade pedagógica (Gatti; Barreto, 2009).


Mais do que formular políticas, é necessário garantir sua continuidade, financiamento adequado e participação ativa dos docentes na sua construção. Políticas elaboradas sem diálogo com os profissionais da educação tendem a apresentar menor aderência à realidade escolar e maior resistência na implementação (Carvalho; Ferraz; Mororó, 2023). Assim, as políticas públicas somente produzirão efeitos significativos quando forem concebidas de maneira integrada, democrática e sustentada ao longo do tempo.


Conclusão: valorizar quem educa também é um compromisso social


Diante das discussões apresentadas, evidencia-se que a valorização docente no Brasil ainda representa um desafio estrutural, marcado pela distância entre os avanços legais e a realidade cotidiana dos professores da rede pública de ensino fundamental e médio. São esses profissionais que mais diretamente sofrem os efeitos da precarização das condições de trabalho, da remuneração insuficiente e da ausência de perspectivas sólidas de carreira. A desvalorização profissional, ao combinar esses fatores, cria um ambiente que impulsiona a evasão de professores qualificados e compromete a permanência dos que permanecem em exercício, exigindo políticas integradas que atuem simultaneamente sobre formação, carreira e condições de trabalho (Jacomini; Penna, 2016).


Valorizar o docente, portanto, não se restringe a uma responsabilidade governamental: trata-se de um compromisso coletivo que envolve Estado, sociedade e comunidade escolar. Investir no professor é investir no futuro do país, pois são esses profissionais que constroem diariamente as bases de uma sociedade mais crítica, democrática e menos desigual (Siqueira; Freitas, 2022).


Referências Bibliográficas


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