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Violência nas escolas e saúde mental: o impacto da ausência de psicólogos e assistentes sociais na rede pública

A violência no ambiente escolar tem se consolidado como um dos principais desafios da educação contemporânea, afetando diretamente o processo de ensino-aprendizagem e o bem-estar de alunos e professores. Diante disso, surge uma questão central: de que forma a ausência de psicólogos e assistentes sociais nas escolas públicas impacta o enfrentamento da violência e o cuidado com a saúde mental? Esta matéria discute o crescimento do adoecimento emocional, a carência de profissionais especializados e as alternativas construídas por escolas que buscam promover espaços de acolhimento.


Violência escolar e saúde mental: uma relação direta


A literatura científica indica que a violência escolar ultrapassa as agressões físicas, abrangendo dimensões simbólicas, psicológicas e sociais, além de refletir desigualdades estruturais da sociedade (ABRAMOVAY, 2002; SOUZA et al., 2017). Esse fenômeno multifacetado se expressa por meio de práticas como bullying, exclusão social, intimidação, preconceito e até violência institucional, afetando diretamente o clima escolar e as relações interpessoais (TAVARES; SILVA, 2024). Nesse sentido, a escola deixa de ser apenas um espaço de aprendizagem e passa a reproduzir tensões sociais mais amplas.


Outro aspecto relevante é o caráter bidirecional dessa relação, uma vez que a violência pode gerar sofrimento psíquico, ao mesmo tempo em que dificuldades emocionais podem favorecer comportamentos agressivos (BENETTI et al., 2014). Essa dinâmica cria um ciclo contínuo de violência e adoecimento, que tende a se intensificar na ausência de intervenções adequadas.


O fenômeno do bullying, em especial, tem sido amplamente estudado como uma das principais manifestações da violência escolar. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de um problema de saúde pública que afeta várias crianças e adolescentes em todo o mundo, com consequências significativas para a saúde mental ao longo da vida. Estudos brasileiros reforçam que vítimas de bullying apresentam maior risco de desenvolver transtornos emocionais e dificuldades de socialização (MENDES, 2011).


Além dos estudantes, os professores também são diretamente impactados por esse contexto. A exposição constante a situações de conflito, indisciplina e violência contribui para o aumento do estresse ocupacional, da exaustão emocional e do burnout, comprometendo tanto a saúde mental quanto a qualidade do ensino (BENETTI et al., 2014). Assim, a violência escolar não é um problema restrito aos alunos, mas afeta toda a comunidade educativa.


Dessa forma, compreender a relação entre violência escolar e saúde mental é fundamental para a construção de estratégias eficazes de prevenção e intervenção. Trata-se de reconhecer que o ambiente escolar pode ser tanto um espaço de risco quanto um espaço de proteção — dependendo das condições estruturais, das políticas públicas e do suporte oferecido aos sujeitos que nele convivem (ABRAMOVAY, 2002).


A ausência de psicólogos e assistentes sociais: lacunas no cuidado


Apesar da complexidade da violência escolar e de seus impactos na saúde mental, a realidade de grande parte das escolas públicas brasileiras ainda é marcada pela ausência de equipes multiprofissionais. Essa lacuna compromete não apenas a capacidade de resposta diante de situações de conflito, mas também a construção de estratégias preventivas e contínuas de cuidado.


A presença de psicólogos no ambiente escolar é fundamental para além de atendimentos individuais. Esses profissionais atuam na promoção da saúde mental, no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, na mediação de conflitos e na orientação de professores e gestores. Diante da complexidade das violências presentes no contexto escolar, evidencia-se a necessidade de formação continuada e de atuação especializada, o que reforça os desafios enfrentados pelos educadores na ausência de suporte adequado (MESSIAS, 2021).


De acordo com Joyce Ferreira, mestre em Psicologia pela UERJ e integrante do Núcleo de Desenvolvimento Humano do Favela In, “a pessoa que pratica a violência, tem a questão da dessensibilização, que tem a naturalização de práticas violentas como corriqueiras, aceitáveis e comuns. Porém, esse jovem que pratica a violência, tem muita dificuldade de socialização e de ajuste por conta desse comportamento. Ao longo prazo, ele vai ter uma dificuldade maior de adaptação à vida adulta, pois vai ser um adulto que vai ter dificuldade para cumprir regras e pontos mínimos de respeito e convivência com os outros. Então, se essa criança ou esse adolescente não sofre uma intervenção disciplinar, ele vai levando esse comportamento para outras fases da vida.


Além disso, a ausência de psicólogos dificulta a identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico, como ansiedade, agressão, automutilação e isolamento social. Esses sinais, quando não reconhecidos e acompanhados adequadamente, tendem a se agravar, impactando tanto o desempenho escolar quanto às relações interpessoais dos estudantes. Nesse sentido, a escola perde a oportunidade de atuar de forma preventiva, passando a agir apenas quando os problemas já estão em estágio mais avançado.

 

Segundo a psicóloga, “o psicólogo pode contribuir na prevenção e na promoção da saúde mental através da identificação de casos de bullying e na proposta de treinamento de habilidades socioemocionais para o desenvolvimento emocional.”


No que diz respeito aos assistentes sociais, sua atuação é igualmente essencial, sobretudo na articulação entre escola, família e comunidade. Muitos episódios de violência escolar estão diretamente relacionados a contextos de vulnerabilidade social, como pobreza, violência doméstica, negligência familiar e exclusão social. O assistente social contribui para a compreensão dessas realidades, possibilitando intervenções mais amplas e eficazes (TAVARES; SILVA, 2024). Sem esse profissional, a escola tende a tratar a violência como um problema isolado, desconsiderando seus determinantes sociais. Isso resulta em práticas que culpabilizam o indivíduo, geralmente o aluno, sem considerar o contexto em que ele está inserido (ABRAMOVAY, 2002). Tal abordagem não é apenas ineficaz, como pode reforçar processos de exclusão e estigmatização.


Outro ponto relevante é que a ausência desses profissionais dificulta a implementação de políticas públicas já existentes, como a Lei nº 13.935/2019, que prevê a inserção de psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de educação básica (BRASIL, 2019). De acordo com Guimarães, Vieira e Fernandes (2024), a inserção de assistentes sociais e psicólogos na educação pública representa não apenas uma possibilidade, mas uma necessidade diante da complexidade das demandas escolares contemporâneas. No entanto, sua efetivação ainda enfrenta desafios relacionados à falta de investimento, planejamento e priorização por parte dos gestores públicos. Essa distância entre legislação e prática reforça a precarização do cuidado em saúde mental no contexto escolar.


Ademais, a falta de equipes multiprofissionais limita a construção de projetos pedagógicos mais integrados, que considerem o estudante em sua totalidade cognitiva, emocional e social. Segundo Guimarães, Vieira e Fernandes (2004), esses profissionais contribuem para a mediação de conflitos, o fortalecimento de vínculos entre escola, família e comunidade, além da identificação precoce de situações de vulnerabilidade social e emocional. 


Para Joyce Ferreira, mestre em Psicologia pela UERJ e integrante do Núcleo de Desenvolvimento Humano do Favela In, “diante de tantos casos de violência que vemos nas escolas, a importância da saúde mental na vida dos estudantes já deveria ser entendida, não só na escola, mas na vida, nas famílias e em todo lugar. Assim como a compreensão de que a criança ou o adolescente precisa dessa saúde mental e de que somos seres sociais, que precisamos nos construir mutuamente e que nós regulamos nossas emoções uns com os outros é importante. Então talvez a compreensão de que a saúde mental precisa ser colocada na rotina escolar de diferentes formas, não só de palestras mas de oficinas, atividades e de ter um ambiente de escuta precisa ser mudada para que a saúde mental seja tratada como prioridade.”


Portanto, a ausência desses profissionais não é apenas uma falha estrutural, mas um fator que aprofunda desigualdades educacionais e sociais. Sem esse suporte integrado, a escola perde sua capacidade de atuar como espaço de proteção e desenvolvimento, tornando-se, muitas vezes, um ambiente que reproduz e intensifica as violências já presentes na sociedade. 


Experiências de acolhimento: caminhos possíveis


Apesar das limitações estruturais enfrentadas pelas escolas públicas, diversas experiências têm demonstrado que é possível construir caminhos eficazes para o enfrentamento da violência e a promoção da saúde mental no ambiente escolar. Essas iniciativas partem, sobretudo, da valorização do acolhimento, da escuta ativa e da criação de espaços que favoreçam o diálogo e o fortalecimento de vínculos entre os sujeitos escolares.


A criação de espaços de escuta, como rodas de conversa, grupos de apoio e práticas de mediação de conflitos, tem sido apontada como uma estratégia relevante para a melhoria do clima escolar e para a promoção do bem-estar dos estudantes. Essas ações possibilitam que os alunos expressem suas emoções e vivências, contribuindo para o desenvolvimento de relações mais saudáveis e colaborativas no ambiente escolar (SILVA; BRAGIO, 2024) .


Nessa perspectiva, o estudo de Fabi et al. (2025) reforça a importância do acolhimento a partir da escuta dos próprios estudantes. Os resultados indicam que o acolhimento está diretamente relacionado à possibilidade de vivenciar relações positivas, sentir-se respeitado e participar de atividades significativas no espaço escolar, elementos fundamentais para a promoção da saúde mental.


Além disso, experiências desenvolvidas no contexto da orientação educacional demonstram que o acolhimento e o diálogo se tornam ainda mais relevantes em cenários marcados pelo aumento do sofrimento psíquico entre estudantes. A criação de estratégias articuladas entre escola, família e serviços de saúde tem sido apontada como essencial para responder às demandas emocionais que emergem no cotidiano escolar (ALVES; SOUZA, 2023) .


Outro aspecto importante diz respeito às intervenções coletivas. Programas estruturados de prevenção da violência escolar, que envolvem estudantes, professores e demais membros da comunidade escolar, têm demonstrado resultados positivos, como a redução de comportamentos agressivos e a melhoria do bem-estar psicológico dos participantes (PRODÓCIMO et al., 2014; SILVA; BRAGIO, 2024) . Essas iniciativas evidenciam que o enfrentamento da violência não deve ser individualizado, mas construído de forma coletiva e participativa.


Além disso, estudos recentes destacam que práticas de cuidado e acolhimento devem ser compreendidas como parte estruturante das políticas educacionais, e não apenas como ações pontuais. O cuidado, nesse contexto, torna-se um eixo central para orientar práticas de saúde mental nas escolas, contribuindo para a construção de ambientes mais seguros e inclusivos (VICENTE; RIBEIRO; MACHADO, 2024) .


Dessa forma, as experiências de acolhimento revelam que, mesmo diante das limitações, é possível construir práticas transformadoras no contexto escolar. Contudo, para que esses caminhos se consolidam, é fundamental investir em políticas públicas que garantam suporte institucional, formação continuada e a presença de equipes multiprofissionais, reconhecendo a escola como um espaço que vai além do ensino, assumindo também um papel central na promoção da saúde mental e na prevenção da violência.


Considerações finais


A violência escolar e o adoecimento emocional estão profundamente interligados e se intensificam em contextos onde faltam intervenções qualificadas. Nesse cenário, a ausência de psicólogos e assistentes sociais nas escolas públicas representa uma lacuna significativa, que limita tanto o enfrentamento da violência quanto a promoção da saúde mental. Sem esses profissionais, a escola tende a atuar de forma reativa, com respostas pontuais e pouco eficazes, além de sobrecarregar educadores e negligenciar fatores sociais e emocionais que estão na origem dos conflitos.


Por outro lado, as experiências de acolhimento mostram que é possível construir caminhos mais humanizados e efetivos, baseados na escuta, no diálogo e na participação coletiva. No entanto, para que essas práticas deixem de ser iniciativas isoladas e se tornem políticas consistentes, é fundamental garantir a implementação de equipes multiprofissionais e o fortalecimento de ações estruturadas. Assim, investir em saúde mental no contexto escolar não é apenas uma necessidade pedagógica, mas um compromisso social com a construção de ambientes mais seguros, inclusivos e promotores de desenvolvimento integral.


Referências bibliográficas


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